14/09/2009

Carta a um admirável diretor.

Oi Jefferson,
fiquei pensando quinze mil duzentas e quarenta e nove vezes se eu te mandava esse email. Nada demais, mas incrível como uma coisa banal as vezes nos faz pensar demais. Imagina... Se eu mando ou não um email. è que as vezes as banalidades contém tantas outras coisas que... Bem, o fato é que assisti as peças e seus trabalhos sempre mexem comigo de uma forma que eu sei essas minhas palavras aqui não vão dar conta de explicar, mas mesmo assim vou fazer o possível. E a dúvida entre enviar e não enviar o email foi: "Caramba, o Jefferson não é muito dado a elogios, não vou mandar... Mas o trabalho é lindo, vale a pena ser comentado, ele não vai se incomodar. Ah, mas vai parecer piuguice. Ah, mas eu sou piegas, ué, qual o problema em ser pieguas?" Enfim, monólogo interior bombando só com o simples fato de mandar ou não uma porra de um email. Caralho, se todos os problemas do mundo fossem como essse... "Ah Alessandra, manda logo isso e pára de gracinha, vai!" Decidi mandar, já tô mandando.

Quarta-feira, estréia do 21.1. Não lembro ao certo que horas mas era a tarde e eu estava em casa pensando em que objeto levar, remexendo minhas pessoalidades, minhas memórias, minhas lembranças, pensando em que parte da minha vida valia a pena ser remexida. E um estalo: cara, que maneiro isso. Eu estou aqui, na minha casa, no meu quarto, com as minhas coisas, e o espetáculo já começou. E adorei isso, sobretudo porque em março apresentei a minha monografia e meu trabalho consistia justamente na minha própria história sendo dividida com o público através dos meus objetos que iam aos poucos sendo guardados em caixas de papelão. Era um péríodo de mudança na minha vida, conclusão da minha faculdade, minha pessoalidade sempre esteve em cena desde o primeiro período e foi a forma mais sincera que encontrei de concluir aquele ciclo de vida e arte, não necessariamente nessa ordem, mas certamente intrinscecamente ligados. O nome do trabalho monográfico é "Sobre Nós - um diálogo entre poesia, composição e improvisação na transpósição do pessoal para o artístico". Mas não estou aqui para falar do meu trabalho, no entato não pude deixar de falar, já que o que eu vivi no 21.1 tinha essa minha experiênciacomo antecedente. E já foi muito bacana remexer meus objetos para levá-los a um espetáculo, imagina fazer isso depois de ter feito um espetáculo com os meus próprios objetos... enfim, eu estava adorando aquilo. Cheguei no Sesc e a... ai, esqueci o nome dela agora.... Ah! A Liliane me pediu meus objetos. Entreguei a ela e quando vi, ela os estava guardando dentro de caixas de papelão! Virei para o meu amigo e falei: "Alê, olha, caixas de papelão!" Fiquei curiosíssima querendo saber o que eu ia encontrar lá, se ia ser parecido com o "sobre nós", se não, o que ia ser feito com os objetos pessoais do público, se iam nos inserir na cena, se iam, de que maneira o fariam (confesso que essa parte me deixou beeeeeeeem aflita! Tanto que a Miwa perguntava alguma coisa e as minhas respostas monológicas tinha por dentro um coração disparado dentro de um corpo duro e retesado. Menino, tenho pavoooooor dessas coisas. E ainda inventei de ser atriz, vai entender! Vai ver é isso, que é mais fácil estar dentro do que fora de cena)?Na cara e na coragem, entrei. E a cada instante eu ia me apaixonando mais. Aquele clima estável, conversa, todos temos uma história, de quem será esse objeto e que história esse objeto vai contar... o que cada um vai falar, como as pessoas vão se mostrar... Não sei dizer, Jefferson, mas sem catarzes o trabalho foi muito provocador, sabe? e que coisa mais linda a Miwa revelando no final que era o pai dela, aquele homem que vinha, e a mãe aquela mulher que esperava... E Jesus, maria, José, se eu tivesse no lugar do cara que ela pediu pra tocá-la no final... Eu nem sei, acho que ia ficar catatônica, estática, completamente paralisada. se mal eu conseguia responder as perguntas triviais que ela me fazia, rsrsrsrsrrs Imagina estar ali, diante de uma mulher nua, pedindo para ser tocada, na frente de vinte e tantas pessoas... Esse incômodo, esses lugares em que seus trabalhos nos colocam... É genial. E no fim, uma pergunta: será que a história do Leandro é verdadeira, será que os objetos são mesmo da avó dele? Será que aquelas trocas de cartas são reais? Será que o que a Julia disse era verdade? Sair provocado por tudo isso, é genial... E mais: como a falta de aplausos é maravilhosa, a continuidade que isso provoca. Começou como terminou, sem rupturas, sem quebras, sem dizer aqui começa ou aqui um "espetáculo". Tudo faz parte da vida. E adoro ver isso... Vida e arte tão misturadas, sem se confrontarem, sem perguntar onde começa e termina uma e outra coisa. Divino. essa questão me ronda tanto. Sei que ronda a arte contemporânea de um modo geral, mas ver acontecer, viver acontecer num a experiência como a tua proposição 21.1 é sempre bom demais. Obrigada por esses instantes, obrigada por me dar a oportunidade de me transformar e afirmar essas questões na minha vida, na minha arte - "em mim", talvez seja melhor dizer, para não separar levianamente uma coisa que está tão misturada com a outra.

Sábado, 05 de setembro, fui assistir 21.2. E mais uma vez fiquei encantada. Entrei ali, naquele bar, sentei e durante praticamente toda aquela 1h40 eu me sentia plena e admirada. Uma encenação tão simples e tão sofisticada ao mesmo tempo. É tão difícil qualificar o teu trabalho, Jefferson, porque eu acho que é justamente isso que ele faz. É como se ele descategorizasse as coisas e colocasse vida nelas. Sem a necessidade das decodificações. Ai, e aquele vestidoooooooooooooo, pelo amoooooooooor Deus, pai santíssimo e amadoooooo. Que coisa mais laranja e mais maravilhosa é aquela? Mas o mais bacana de tudo, é que a primeira coisa que me veio a mente quando a Luisa entrou em cena foi: "Gente, que mulher magra é essa?" A magreza dela era impressionante e me agoniou um pouco, até porque eu nunca a tinha visto pessoalmente e não podia imaginar que ela era tão magra. Até porque, sei lá porque, uma cosia engraçada, acho que a Luisa não tem cara de pessoa magra, sabe? Enfim, isso não vem ao caso. O fato é que pouco tempo depois, aquela magreza agoniante já tinha desaparecido dos meus olhos, porque o que eu via naquele dois, entre aqueles dois tomou proporções inomináveis. A gente está tão acostumado a ir ao teatro e ver personagens, e ver histórias, grandes cenários, e ver tanta coisa... O bacana ali era que eu estava vendo gente. E pra mim não tem nada mais deliciosa em teatro do que ver gente. Ontem mesmo, eu estava assistindo uma entrevista com o Matheus Nachtergaele e perguntaram a ele algo como que tipo de ator irrita ele quando ele está como diretor. Ele respondeu que ele gosta de todo tipo de ator, mas a única coisa que irrita ele é gente que não está verdadeira mente envolvida com o que faz, gente que não se mela daquuilo que está fazendo, que ele gosta de ver algo parecido com a vida. E acho que ele estava falando disso que eu vi ali. E acho que na verdade não é algo que se parece com a vida, né? Acho que é algo que é vida. Pelo menos pra mim, foi. Além de tudo isso, eu ainda estava vivendo um momento parecido com um instante que o casal Luca e hors viveu: a separação. eu estou vivendo um momento bem parecido e e olhei pra aquilo e vi tudo tão de verdade, vi tudo tão ali... o silêncio de uma separação, a incomunicabilidade, o estranhamento que acontece entre duas pessoas que até ali eram tão cúmplices, o abismo que se faz entre dois que já estavam tão misturados que nem sabiam mais o que ra de um ou de outro. E o vácuo que acontece dentro da gente. E o choro ininterrupto do fim, o entender que ali, acabou. Nesse omoento eu pensei: Gente, cadê a serra, porque uma gilete é pouco pra cortar os pulsos, rsrsrs. mas foi só um pensamento distaciado, entendeu? Eu não estava me sentidno assim! Eu me identifiquei com aquilo, era bonito, era verdadeiro, era denso, mas não era ua catarse trágica! E falei: filho da puta! Como que consegue fazer isso? Algo tão profundo, tão humano, tão verdadeiro sem ser excessivo, visceral a quinquagésima potência. Era para eu estar querendo cortar os pulsos, mas eu estava apenas identificando na Luisa o que de mim existia naquela vivencia. E esse "apenas" é tanta coisa... Aí eu me lebrei de uma frase que ouvi quando eu estava no primeiro período da faculdade, numa aula de teoria, o professor pergunatnd: Para que serve a arte?" E vendo 21.2 eu pensei: Cara, isso aqui me pergunta através da arte pra que serve a vida, e agora eu vou sair daqui, e vou me perguntar pra que serve a arte através da minha própria vida. E me lembre porque eu fui procurar fazer teatro da vida, pra que eu fui procurar escrever da minha vida, porque eu fui procurar fazer arte da minha vida e vida da minha arte... a vida por si só não deu conta dela mesma... e acho que a arte também não. Mas se não existe uma coisa nem outra separadamente, eu já estou me contradizendo, mas não tem problema, sinto que é algo por aí. E seus trabalhos sempre me ajudam a pensar sobre isso, a viver isso, a continuar me perguntando... Só que o mais belo disso tudo, é que parece que os teus trabalhos são tudo isso sem a pretensão de ser, e só por isso são, entendeu? Cara, parabéns de verdade, do fundo do coração (coisamais cliché e piegas... mas é verdade), é muito gratificante ter a experiência de entrar num teatro e experimentar tudo isso. Coisas que eu levro pra minha vida e que são, pode ter certeza, um aprendizado artístico, sempre. Um parabéns muito grato pra você e todos que estiveram presentes aí construindo esse trabalho. Vou colar aqui um poema que eu escrevi no ano passado, logo no início do meu processo de monografia... Acho que tem um pouco a ver com tudo isso, embora não dê a dimensão de nada do que eu vi...

TÍTULO
Quero ser no palco
letra de biografia romanceada
n'alma o que eu queria
era ser puro verso de livre poesia
e na vida , este conto inacabado,
o que eu poderia senão
essa mais plena ficção?

...

Reticências no espaço do pensar diriam:
Se não houvesse nesse coração estúpido
tamanha pretensão
quereria mesmo ser versos sem rima
amor sem endereçocarta sem destino
ponto sem final
porque no fim
tudo vira vírgula

nada

no meio de qualquer coisa
sem essa de virar canção,
arte comentada,
bibliografia recomendada
nessa pobre rima
esse particípio que já foi
quisera tanto que esqueceu de ser

Esse querer mais-que-perfeito...

Há um tempo falando também
do futuro de um que se escondeu lá atrás
não se tocou que seu presente não tinha conjugação
talvez nem verbo
nem coisa nenhuma
E sem querer, já é.

elA

Uma pena eu não ter assistido 21.3, ainda mais pq é com a Julia. Estou torcendo para que vocês ocupem outro espaço aqui no Rio. Vocês tem essa intenção? Bom, não sei se eu disse tudo, mas acho que eu disse o mais importante. Desculpe a pieguisse e os excessos... Tô trabalhando o comedimento, eu juro. Um dia eu consigo! rs.
Um beijo grande, Lelê


elA again

2 comentários:

Rafaela Figueiredo disse...

cara, q foda!...............

acho o pensamento sobre absolutamente desse jeito: intransponível!
estão, de fato, indissociavelmente conectados.

bem bonito! [e o poema? nossa!]
e fiquei imaginando - e qrendo ver - essa peça aí.

o/

Rafaela Figueiredo disse...

pensamento sobre >arte/vida/arte<

sumiu*

:S